Justiça Cega propõe uma reflexão inquietante sobre a ideia de justiça, a partir de uma perspetiva feminina e feminista, interrogando quem pode falar, quem é silenciado e em que condições a voz de quem se defende é verdadeiramente ouvida.
O espetáculo convoca três figuras marcadas por atos extremos — Medeia, La Llorona e uma personagem ficcional associada ao filicídio — para construir um espaço de questionamento sobre os modos como o julgamento se instala, se naturaliza e se representa. Mais do que recontar mitos ou narrativas conhecidas, a peça imagina outras formas de escutar estas mulheres e de pensar a justiça para além de esquemas simplificadores.
No centro da encenação está o silêncio: não apenas como imposição exercida sobre quem se quer defender, mas também como escolha possível, ambígua e estratégica. Justiça Cega interroga a encenação da própria audiência judicial, onde muitas vezes falar não basta — e onde a palavra feminina, mesmo quando existe, nem sempre produz escuta.
Ao atribuir voz a estas três “arguidas”, o espetáculo não procura absolvê-las, mas abrir um espaço crítico sobre o pensamento judicial e os seus limites. A complexidade das narrativas femininas não é apagada; é, pelo contrário, assumida como ponto de partida para imaginar uma justiça que não reduza, não simplifique e não silencie.

