A gestão política da morte: de Antígona à Palestina
- heurekasite
- 19 de jan.
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Atualizado: há 13 horas
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A Biblioteca Palácio Galveias acolheu no passado dia 28 de janeiro a nossa primeira palestra de 2026 e nem as condições climatéricas desfavoráveis provocadas pela tempestade Kristin se mostraram capazes de demover o nosso público.
Antes de ser dada a palavra à oradora convidada, um trio de colaboradores do Heureka declamou duas cenas da Antígona de Sófocles (na mais recente tradução de Marta Várzeas), pela voz dos quais se ouviu a célebre declaração da filha de Édipo que ecoou pelos séculos fora: “Não nasci para os acompanhar no ódio, mas no amor.”
De seguida interveio Sandra Pereira Vinagre. Falar de Antígona é uma tarefa hercúlea e até inextinguível; há algo de assoberbante na forma como sucessivas reinterpretações e teorias se vão acumulando, à maneira de sedimentos, e constituindo uma montanha milenária que pesa sobre o texto. Talvez por isso a oradora nos tenha fornecido logo de início aquela que seria a sua chave de leitura da obra sofocliana: a Antígona, disse, é uma tragédia sobre o luto e o poder, sem prejuízo de outras interpretações que privilegiem os aspetos filosóficos da contenda que opõe as leis da cidade, consubstanciadas no édito promulgado por Creonte, à lei divina que Antígona reivindica como fundamento de uma desobediência despojada de qualquer freio. Na peça, o luto reveste-se de importância cívica e Antígona, que lhe dá corpo e expressão pública ao prestar honras fúnebres ao irmão insepulto (não se cingindo apenas a lamentá-lo no recato doméstico do lar, como faz Ismena), transgride com o que havia determinado o novo regente tebano e adota uma atitude eminentemente política.
A criminalização do luto que é pano de fundo para o enredo de Sófocles e sobre a qual assenta a política do estado de Israel no sentido da retenção e da não-devolução dos corpos dos palestinianos mortos às famílias enlutadas – prática que, como a oradora oportunamente assinalou, constitui uma violação das Convenções de Haia e Genebra e mereceu em 2016 o repúdio do Comité Contra a Tortura das Nações Unidas, tratando-se de uma forma de punição coletiva e de violência necropolítica – está na génese de uma adaptação de Antígona pela mão de Adel Hakim estreada com um elenco composto por atores do Teatro Nacional da Palestina e que conheceu uma posterior digressão em França. O respeito escrupuloso para com o texto de Sófocles, encenado na íntegra, salvo na omissão da última ode coral cujo lugar é tomado por um poema de Mahmoud Darwish ouvido em gravação – circunstância deveras inusitada num tempo em que tantos, por mero facilitismo, procuram violentar o cerne dos textos clássicos – preserva a essência da tragédia propriamente dita, a qual sempre deu azo à reflexão desapaixonada e jamais se compadeceu de maniqueísmos ou parcialidades, ao mesmo tempo que faz recair sobre a cenografia – designadamente, sobre o muro que enquadra todos os momentos da encenação – e sobre a reação do público o ónus de estabelecer um paralelismo entre o dilema de Antígona e as vicissitudes do povo palestiniano. O espetador, longe de ser aqui somente o elo passivo de uma intenção autoral preponderante, participa ativamente na assimilação de Creonte a um poder despótico e colonizador e na identificação de Tebas
A velha filologia do século XIX, ao tomar como ponto de partida o texto e por muito prezar as leituras de teor mais rarefeito e “universal”, legou-nos uma imagem do herói trágico que ainda hoje exerce grande fascínio; são as figuras marmóreas de uma imperturbabilidade estoica, a braços com a angústia existencial que faz lembrar um gracejo de Werner Herzog: cada homem por si e Deus contra todos. Mas a palestra de Sandra Vinagre conseguiu chamar a nossa atenção para o facto de o teatro grego ter sido desde os seus primórdios uma instituição acarinhada e promovida no seio da Atenas democrática do século V a.C.; foi, com efeito, uma plataforma de reflexão e entendimento comuns, paga a expensas públicas, com o intuito de resgatar da solidão mais atroz o ser humano e é porventura este vínculo umbilical que une a tragédia às dúvidas e inquietações do seu tempo que a torna, paradoxalmente, mais capaz de acudir às do nosso. E o nosso é um tempo de tragédia.
David Miranda
(Responsável do Heureka – Clube de Leitura)

Divulgação da sessão:

A figura de Antígona tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da resistência do indivíduo face ao poder autoritário, afirmando-se como uma narrativa fundadora da consciência cívica. No entanto, na tragédia de Sófocles, esse confronto nasce de um gesto simples e profundamente humano: dar sepultura ao irmão morto, contrariando a proibição do rei Creonte. É neste gesto que a tragédia revela a sua força, ao opor a lei da cidade a uma lei mais antiga, não escrita, ligada ao dever familiar e religioso.
A encenação de Antígona, dirigida por Adel Hakim com os actores do Teatro Nacional da Palestina, inscreve esta tragédia antiga no presente. O gesto de Antígona encontra uma ressonância perturbadora na Palestina, onde, durante décadas, os corpos de palestinianos mortos não foram devolvidos às suas famílias por decisão do Estado de Israel. Enterrados anonimamente, em condições indignas, em locais isolados conhecidos como “cemitérios dos números”, estes corpos são privados de nome, de ritual e de luto.
Tal como Creonte recusa a Antígona o direito de sepultar o irmão, também aqui o poder decide sobre os mortos, procurando silenciar os vivos. À luz do conceito de necropolítica, proposto por Achille Mbembe, o corpo insepulto surge como um lugar de disputa política e simbólica, o gesto de Antígona como uma forma de resistência, e o teatro como um espaço de denúncia. A tragédia recorda-nos que o direito ao luto é também um direito à humanidade, e que recusar esse direito é uma forma de apagar o outro.
Oradora:

Sandra Pereira Vinagre é investigadora no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 2012, dedicando-se à receção contemporânea da tragédia grega em contextos políticos e sociais conturbados.
Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas, Mestre em Estudos Clássicos e Doutorada (summa cum laude) em Estudos de Receção, é autora de vários artigos e capítulos de livros, com participação regular em conferências nacionais e internacionais.
Publicou recentemente As Mulheres Troianas da Síria (Edições Colibri, 2024), dedicado a adaptações contemporâneas de As Troianas, de Eurípides, por mulheres refugiadas sírias.
Contamos consigo no próximo dia 28 de janeiro, às 18h30: A gestão política da morte – de Antígona à Palestina.
Organização: Ana Alexandra Alves de Sousa e José Maurício
Local
Biblioteca Palácio Galveias
Campo Pequeno
1049-046 Lisboa















