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16º Encontro de Leitura: Alcibíades

15 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 26 de out.

Este evento já se realizou!

No passado dia 16 de outubro, o Heureka realizou o seu primeiro encontro de leitura de 2026-2027, subordinado ao tema do ciclo “A Medida do Humano”. Acolheu-nos, desta feita, o Centro de Estudos Clássicos da Faculdade da Letras da Universidade de Coimbra. O Clube, com efeito, tem tido o privilégio de poder contar com a assídua colaboração de professores e classicistas coimbrões, que vêm abrilhantando as nossas palestras na condição de oradores. Pensemos na sessão de abril das Galveias, onde a Professora Paula Barata Dias nos falou de bárbaros e de Antiguidade Tardia, ou na sessão de fevereiro, com a Professora Maria de Fátima Silva e os fragmentos de Eurípides cuja tradução recentemente empreendeu… Era da mais elementar justiça, portanto, que o Heureka se deslocasse até Coimbra e aí procurasse estabelecer pontes no campo dos Estudos Clássicos com o corpo docente e estudantil.


Partimos às dez da manhã. Eramos sete: as duas fundadoras do Clube, as Professoras Ana Alexandra Alves de Sousa e Cristina Abranches Guerreiro, cuja relação com Coimbra data de há largas décadas, e cinco estudantes - o Tiago Costa e a Filipa Ribeiro, que frequentam o último ano da licenciatura em Estudos Clássicos; o João Domingues Pereira, agora a ultimar a sua tese de mestrado em História Antiga; a Maria Claro, aluna de 1º ano e nossa fotógrafa de ocasião; e eu. Toda a viagem, devo dizer, se assemelhava já a um improvisado encontro do Clube, porquanto pouco ou nada discutimos no caminho senão a atribuição do Nobel da Literatura a Anne Carson ou a utilização do adjetivo κηρόδετος (“colado com cera”) para qualificar as siringes de boieiros e cabreiros na poesia bucólica.


Tendo chegado por volta do meio-dia, desfrutámos de uma aprazível refeição no Justiça e Paz, restaurante muito procurado pela comunidade académica e com vista para o Mondego. Daí prontamente nos deslocámos até à Faculdade de Letras, tendo o encontro começado às 14h na Sala Maria Helena da Rocha Pereira. Esta sala fora inaugurada oficialmente a 8 de julho, quando decorriam ainda as comemorações do centenário da magna helenista encetadas no dia 3 de setembro do ano passado. Nesta sala forrada de livros, sob o olhar atento e benevolente do busto da Professora Rocha Pereira – uma efígie, diga-se, capaz de inspirar em qualquer aluno de Clássicas um certo temor reverencial -, lemos vinte e seis excertos da Vida de Alcibíades. O local do encontro, de resto, presidiu também à escolha: a tradução da biografia do estadista ateniense, emparelhada com a de Coriolano, foi levada a cabo por dois classicistas, um de Lisboa (o Professor Nuno Simões Rodrigues), o outro de Coimbra (a Professora Maria do Céu Fialho) e pode ser consultada online no âmbito do projeto Classica Digitalia, seguramente o mais notável contributo para a área dos Estudos Clássicos em Portugal desde o seu arranque em 2008 e que visa a disponibilização de muitas das obras basilares da cultura ocidental em acesso aberto.


Receberam-nos a Professora Cláudia Cravo e o Professor José Luís Brandão, com quem, a par das Professoras Susana Marques e Carmen Soares, temos uma dívida de gratidão. Com eles vieram os estudantes de licenciatura e mestrado em Estudos Clássicos, num encontro que concretizou o que se pretendia: dar a conhecer aos futuros helenistas e latinistas de Coimbra – como o Artur, aluno do 2º ano - um projeto da autoria dos seus colegas de Lisboa. E durante duas horas discutiu-se Alcibíades.


Discutimos o caráter quase sobrenatural da sua beleza e o desregramento das paixões que dela procede; a sua infância sob a alçada de Péricles e Arífron; a relação com Sócrates, que disse, pela pena de Platão, só amar duas coisas: a filosofia e Alcibíades. Debruçámo-nos sobre os seus feitos atléticos e dotes oratórios. Ficámos a conhecer a história do famoso cão de Alcibíades, mutilado na cauda, e de como o dono, no afã de granjear glória imorredoura e exorcizar a sombra tutelar de Péricles, deitou a perder a paz de Nícias. O Queroneu, na verdade, faz por apresentar Alcibíades como uma figura excessiva a todos os títulos, ora comparada a um escravo, ora a uma mulher, ora a um leão – a tudo, enfim, quanto não comporta a justa medida do que é humano. A biografia surge pejada de relatos anedóticos que prefiguram a ruína da cidade de que aquele enfant terrible é o inequívoco portador. “Fazes bem em te tornares grandes, filho,” diz-lhe Tímon, o Misantropo, “pois a tua grandeza será a ruína de todos estes”. A ruína é a malograda expedição da Sicília e traição por parte de Alcibíades em prol de Esparta e, mais tarde, da Pérsia. É que nem mesmo a redenção que conhecerá uns anos mais tarde, quando a deposição da oligarquia dos Quatrocentos e a restauração da democracia lhe proporcionarem a oportunidade de um regresso triunfal à cidade que o viu nascer, parece capaz de apagar a imagem de uma vida de porfia e que tem por epílogo a morte na Ásia longínqua às mãos de bárbaros e em circunstâncias nunca devidamente esclarecidas. Adaptava Alcibíades continuamente os seus costumes e temperamento à voragem das circunstâncias e, conclui Plutarco, era “mais rápido no seu mimetismo que o camaleão.”

Os Gregos cunharam um provérbio curioso; daquele que empreendia algo inútil ou supérfluo, dizia-se que γλαῦκ' εἰς Ἀθήνας, isto é, que trazia corujas para Atenas. Era a coruja o símbolo ubíquo da cidade, ave sagrada da divindade políade, que figurava profusamente na numismática (pensemos nos emblemáticos tetradracmas atenienses). Ora, o símbolo do Heureka – Clube de Leitura é uma coruja e também Coimbra já foi apelidada, pela sua dedicação à cultura, de “Lusa Atenas”. Ao levar para Coimbra um texto que lá traduziram e publicaram, pensei, talvez mais não tenhamos feito do que levar a nossa pequena coruja até Atenas. Mas é para Atenas, como testemunham a generosidade e hospitalidade com que fomos recebidos, que as corujas devem voar.


(David Miranda)


Divulgação da sessão:

Cartaz Heureka. Décimo Sexto Encontro de Leitura. Alcibíades, os perigos da ambição.

No dia 16 de outubro pelas 14h:00, a Sala Maria Helena da Rocha Pereira na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolherá o primeiro encontro de leitura do Heureka dedicado ao tema do nosso novo Ciclo 2026-2027:



Deste modo se inaugura uma aproximação entre o Heureka, sediado no Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, e o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. A entrada é livre e aberta ao público.




A imagem que nos chegou da Antiguidade a respeito de Alcibíades (450 - 404 a.C.) é em tudo excessiva. A cada uma das suas grandes virtudes – a beleza arrebatadora, o berço aristocrático, o génio tático, o carisma político –, este estadista ateniense fez corresponder um grande vício: a vida dissoluta do eterno apaixonado, a soberba, a imprudência e o oportunismo. Falar de Alcibíades é falar de um homem cuja ascensão e queda se fizeram ambas de desmesura e no qual os Gregos viram a sedução e o perigo dos seus próprios ideais.



Contamos consigo no próximo dia 16 de outubro, às 14h00 Encontro de Leitura: Alcibíades: Os Perigos da Ambição

📖 Vida de Alcibíades (Plutarco)

Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
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