A Medida do Humano
Atualizado: 20 de set.
No próximo dia 30 de setembro, às 18h30, o Heureka – Clube de Leitura tem o prazer de anunciar a sua primeira palestra de 2026-2027, dando a conhecer o nosso novo ciclo "A Medida do Humano".

A cultura grega antiga interrogou de forma profunda a condição humana e num mundo marcado por avanços científicos, decisões éticas e políticas cada vez mais complexas e transformações aceleradas, as questões colocadas pelos gregos desde a Antiguidade adquirem renovada urgência: quais são os limites do poder humano, que responsabilidades acompanham o conhecimento e de que modo devem esses limites ser reconhecidos, interrogados ou redefinidos?
A sessão contará com a participação dos dois membros fundadores do Heureka — a Professora Ana Alexandra Alves de Sousa e a Professora Cristina Abranches Guerreiro — e do responsável pelo Clube, David Miranda, cujas intervenções elucidarão a pertinência do tema e as escolhas que presidiram à conceção do ciclo.
O encontro incluirá a leitura de excertos de obras de vários autores gregos.
A entrada é livre.
Notas biográficas e resumo das intervenções:

Ana Alexandra Alves de Sousa é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1999, tendo igualmente colaborado durante 22 anos com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Integra o Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa e colabora com o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra.
Dedica-se ao estudo da literatura grega antiga (período clássico e poesia helenística), destacando-se os seus trabalhos sobre Apolónio de Rodes, cuja epopeia se encontra parcialmente publicada, em tradução sua, pela Imprensa de Coimbra. É autora de numerosos estudos publicados em editoras e revistas científicas nacionais e internacionais. Tem promovido diversas iniciativas de divulgação da cultura clássica junto do grande público. Cocoordena, com Cristina Abranches Guerreiro, cursos de verão promovidos pela FLUL e é cofundadora do Heureka – Clube de Leitura, dedicado à divulgação da cultura clássica e da sua receção.
Resumo da intervenção:
Na cultura grega, a medida não corresponde a uma regra rígida nem à simples ausência de excessos, mas à procura de uma relação equilibrada entre forças diferentes. Na arquitetura e na escultura, conceitos como μέτρον, ἀναλογία, συμμετρία e κανών traduzem-se na proporção entre as partes e o todo, nas relações entre a altura e o diâmetro das colunas, nas correções óticas do Pártenon e no equilíbrio dinâmico do Doríforo (“Portador da Lança”) de Policleto.
No pensamento e na literatura, essa mesma procura conduz à reflexão sobre os limites da condição humana. Os preceitos délficos μηδὲν ἄγαν e γνῶθι σαυτόν, a fragilidade dos mortais evocada por Píndaro e Sólon, o domínio da natureza pela τέχνη e a impossibilidade de vencer a morte mostram que conhecer a própria medida é uma forma de sabedoria. A tragédia representa o momento em que esse equilíbrio precário se rompe; a ética procura recuperá-lo através da σωφροσύνη, do reconhecimento do καιρός e do "meio-termo" (μεσότης) aristotélico. A medida do humano nasce, em última análise, da consciência da sua mortalidade.
(Ana Alexandra Alves de Sousa)

Cristina Abranches Guerreiro é doutorada em Literatura Grega (com uma dissertação intitulada Os sonhos régios da Pérsia nas Histórias de Heródoto). Tem publicado traduções (de textos gregos e latinos) e artigos sobre historiografia grega e sobre a receção dos clássicos na literatura portuguesa. Entusiasta do ensino do grego e do latim (e docente dessas duas línguas, na FLUL, em vários níveis de estudo), tem colaborado no Mestrado em Ensino da Universidade de Lisboa, no âmbito da Didática das Línguas Clássicas.
Resumo da intervenção:
Acerca dos limites da condição humana, Heródoto atribui a Sólon uma afirmação proverbial, num diálogo com Creso: πᾶν ἐστι ἄνθρωπος συμφορή (Heródoto 1.32), «o homem é, em tudo, συμφορή». A pluralidade de sentidos deste termo – conjunto de circunstâncias, acaso, vicissitude, sorte, desgraça – permite pensar na medida do humano como a fronteira entre aquilo que o homem pode projetar e o que efetivamente pode controlar. Embora procure proteger-se das adversidades, é incapaz de prever o desfecho das suas ações. Os maiores esforços para evitar um infortúnio anunciado (como a tentativa de Creso para salvar da morte o seu filho Átis - Heródoto 1.33-45) podem ser, por ironia trágica, os seus catalisadores. Reconhecer a medida do humano é não menosprezar os seus limites no conhecimento, na ação e no domínio sobre o futuro.
(Cristina Abranches Guerreiro)

David Alexandre Bernardo Miranda é licenciado e mestrando em Estudos Clássicoa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É, desde 2025, bolseiro da Gulbenkian e responsável pelo Heureka - Clube de Leitura. Participou em 2026 num programa arqueológico da American School of Classical Studies em Atenas. Interessa-se por vasos gregos, pela Electra de Sófocles e por tudo quanto se relacione com o Império Bizantino.
Resumo da intervenção:
A famosa frase de Protágoras - πάντων χρημάτων μέτρον ἄνθρωπος, «a medida de todas as coisas é o homem» (Teeteto 152a) – ainda hoje ecoa nos nossos ouvidos. Os seus contemporâneos, como Sócrates, surpreenderam nela a perniciosa afirmação de um relativismo que poderia corroer os alicerces da moral ou abolir qualquer hipótese de fundamentar a sabedoria, mas nós, indelevelmente marcados pelo antropocentrismo do Renascimento, vemos antes uma alusão às assombrosas potencialidades do ser humano. Protágoras foi também um agnóstico e, ao arrepio de um pessimismo muito arreigado entre os autores gregos, constituiu-se como um notável partidário da ideia de progresso: num mundo de deuses omissos e feito à sua medida, o homem poder-se-ia emancipar da sua condição natural por meio da técnica, simbolizada pela figura de Prometeu, da educação e da política, devassando todos os limites que lhe haviam sido impostos e alcançando um esplendor cada vez maior. Mas se assim for, o que restará do humano?
(David Miranda)
Contamos consigo no próximo dia 30 de setembro, às 18h30: A Medida do Humano: o novo ciclo do Heureka
Local
Biblioteca Palácio Galveias
Campo Pequeno
1049-046 Lisboa



