Estranhos e Livres: os bárbaros no Império Romano Tardio
- 2 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de mai.
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A Biblioteca Palácio Galveias acolheu no passado dia 29 de abril a nossa mais recente palestra do Heureka - Clube de Leitura, desta feita dedicada aos temas da Antiguidade Tardia.
Antes de tomar a palavra a oradora convidada, leram-se cinco breves excertos da História Nova de Zósimo, contando o Heureka – Clube de Leitura para o encargo com a colaboração de alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e de escolas secundárias.
De seguida interveio Paula Barata Dias. Começou a Professora com uma introdução que foi também uma forma de se justificar: por que motivo nos devemos deixar cativar por Zósimo? Zósimo, um oficial do Imperador Anastácio, não consta do cânone da grande historiografia greco-latina e os poucos que guardaram uma memória a seu respeito – o patriarca Fócio, por exemplo – fizeram-no sem o poupar a uma apreciação negativa e enviesada.
Zósimo, todavia, como demonstrou a nossa oradora, é merecedor de uma leitura mais atenta. Tendo nascido em 460 d.C., meio-século após o saque de Roma de 410, escreveu já sob a égide de um Império Romano desagregado a ocidente, substituído pelos estados “bárbaros” precursores das modernas nacionalidades desses territórios, e prolongado a oriente por Bizâncio. A sua obra, por oposição à de Políbio, é um fresco da decadência romana votada ao desprezo dos deuses e a mediania desataviada do estilo e da análise, longe de constituir um defeito, aproxima-o quiçá das crenças populares do seu tempo, facto que lhe encarece o valor testemunhal. Que melhor autor, portanto, para perspetivar a problemática do “bárbaro” e do outro do que este historiador?
Seguiu-se à introdução uma elucidativa contextualização histórica. Zósimo integrou a vaga de historiadores pagãos, a par de Jordanes e Amiano Marcelino, levados a reflectir sobre as mudanças profundas que se operaram em Roma e que, presumivelmente, estariam na génese da decadência; entre os pontos de inflexão avultava o Cristianismo, alcandorado a religião oficial do estado pela mão de Teodósio em 380, e que, sugere Zósimo, por força da sua pusilanimidade e pelo facto de comportar a abjuração dos tradicionais ritos e divindades romanas, teria precipitado a queda do Império de Ocidente. Ler a História Nova, depreende-se, é a ler a crónica de um mundo sorumbático, ameaçado por inimigos externos e internos.
Quão “inimigos” seriam bárbaros e cristãos foi a questão que ocupou a última parcela da palestra. A pressão das vagas populacionais já se fizera sentir desde o segundo século, mas sempre no âmbito das migrações; os povos “bárbaros”, tradicionalmente dedicados ao nomadismo da transumância, pilhavam os territórios em incursões esporádicas, recusando a ocupação prolongada que só se verificaria muito posteriormente a partir das fixações goda e franca; eram populações migratórias e não invasoras, muitas delas sujeitas à inclemência das alterações climáticas e sob o acosso de outras etnias (os Hunos da estepe euro-asiática) que as obrigavam a percorrer longas distâncias fazendo-se acompanhar de mulheres e filhos. O que pretendiam, no dizer da oradora, era entrarem e integrarem-se na ordem romana mais do que corrompê-la e Roma, de início, numa lógica de puro custo-benefício, soube ainda corresponder a esta aspiração, concedendo-lhes terrenos aráveis a troco do aprovisionamento de homens para travar guerras cada vez mais onerosas.
Com efeito, concluiu a Professora Paula Barata Dias, o desafio que se colocava aos Romanos diante dos bárbaros não destoaria assim tão grandemente daquele que se colocara alguns séculos antes, quando a ascensão do Cristianismo abalou as fundações da cidade eterna sem, todavia, a colocar em causa por completo. Mas a História teve outros desígnios.
É de esperar, imagino, que esta palestra tenha tocado mais de perto o nosso público; porque falar do “outro” na Antiguidade é, o mais das vezes, falar de troianos e persas e citas e egípcios, quando não dos gregos que se viram convocados a participar na teia de despiques fratricidas entre as várias cidades-estado, essa glória e flagelo particular da Hélade; o outro de Zósimo, porém, eram os bárbaros e os cristãos – eramos nós - e a esta junção da barbárie com a Cristandade alguém algures chamou Europa.
David Miranda
(Responsável do Heureka - Clube de Leitura)
Divulgação da sessão:

O final do século IV e o início do século V constituíram, para o Império Romano, um período de profunda perturbação política, religiosa e militar. Destaca-se, nesse contexto, a intensa pressão exercida sobre as fronteiras, em particular no Oriente, devido às movimentações – migrações e invasões – de povos designados como "bárbaros" em direção ao Ocidente romano, movimentos que se revelariam decisivos para a reconfiguração do Império nos séculos subsequentes.
É sobre este momento crítico que incide o livro IV da História Nova de Zósimo, cuja narrativa abrange o período desde o reinado de Valentiniano I (364) até ao de Teodósio I (395). Interessa-nos analisar a forma como, escrevendo já num contexto posterior de crise e fragmentação imperial, Zósimo constrói a imagem desses novos povos integrados nas fronteiras romanas: as suas origens, características, ameaças e qualidades. Importa ainda considerar que, pontualmente, o autor parece admitir a possibilidade de que, através da transformação etnogenética das sociedades romanas tradicionais, pudesse emergir uma configuração do mosaico social mais equilibrada e mais justa. barbaros no imperio romano
(Paula Barata Dias)
Oradora

Paula Barata Dias é Professora Associada com Agregação no grupo de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É também investigadora integrada do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade, onde participa na linha de investigação "Reescrita do Mito".
Doutorada em Latim Medieval (2005), tem desenvolvido investigação e publicado em diversos domínios dos estudos da Antiguidade, com especial incidência na Antiguidade Tardia e nas religiões do mundo antigo. Tem igualmente publicado artigos sobre a receção do teatro - em particular de Eurípides - na Idade Média e na prosa portuguesa contemporânea.
Contamos consigo no próximo dia 29 de abril, às 18h30: Estranhos e Livres: os bárbaros no Império Romano Tardio
Organização: Ana Alexandra Alves de Sousa e Sandra Pereira Vinagre
Local
Biblioteca Palácio Galveias
Campo Pequeno
1049-046 Lisboa



















