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Os bárbaros somos nós? Orientalismo, Teatro e Estereótipos

  • 13 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 10 de mar.

Este evento já se realizou!

Palestra Heureka. Orientalismo, Teatro e estereótipos. Com Maria de Fátima Silva

Foi na passada quarta-feira, dia 25 de fevereiro, que se realizou a nossa já habitual palestra mensal, desta feita consagrada à personagem que decerto se foi avolumando na mente do nosso público quando primeiro lhe propusemos um ciclo anual dedicado à temática do bárbaro e do estrangeiro na cultura helénica: Medeia.


Antes de tomar a palavra a oradora convidada, dois alunos da licenciatura em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras declamaram três pequenos excertos da Medeia de Eurípides, no último dos quais se pôde ouvir essa condenação inapelável por parte de Jasão que sempre pesou (e pesa ainda) sobre a princesa da Cólquida: "Mas a ti nem mil impropérios seriam capazes de te morder. Tal é o impudor inato que possuis. Desaparece, desavergonhada assassina de teus filhos!"


De seguida interveio Maria de Fátima Silva. A Professora Maria de Fátima veio munida de um exaustivo suporte visual, mas tão contagiante era o entusiasmo, tão sistematizadora a memória e tão prodigiosa a naturalidade com que falava sobre estes temas que depressa ficou patente que o suporte veio apenas em nosso benefício.


Começou a oradora por fazer uma caracterização de Medeia tomando como ponto de partida a totalidade da obra euripidiana; não apenas, portanto, a célebre peça epónima (apresentada a concurso em 431 a.C.), mas também duas outras peças das quais nos chegaram fragmentos: Filhas de Pélias (de 455 a.C.), na qual se narra a peripécia na cidade de Iolco que antecede a fuga do casal para Corinto, e Egeu (de 440 a.C.), onde deparamos com uma Medeia já entregue à guarda de um novo marido, Egeu, em Atenas, após o cometimento do abominável filicídio. O enorme lapso temporal (mais de vinte anos!) que vincula o primeiro ao último tratamento dramático da personagem testemunha do grande fascínio que a feiticeira exerceria sobre Eurípides, em nada inferior àquele exercido sobre o espectador contemporâneo das tragédias e sobre os muitos leitores que o sucederam.


Os traços psicológicos de Medeia ao longo de todas as suas aparições, reforçou-se, são constantes: a manha e a agudeza de espírito com que leva a melhor sobre quaisquer adversários; o turbilhão dos seus sentimentos e o mortífero voluntarismo que deles advém (seja em abandonar a terra natal pelo homem que ama, em orquestrar a morte do rei Pélias com a cumplicidade insuspeita das próprias filhas ou em sacrificar duas crianças para lhes atingir o pai); a sua sede de vingança, que a todos aterroriza; um rasgo e uma audácia quase viris, a ponto de constituírem ameaças que pairam sobre cidades inteiras (assim sendo, nunca as indisposições de Medeia podem ser menosprezadas como se de meros arrufos matrimoniais se tratassem); o seu uso exímio da oratória, preocupação constante da tragédia de Eurípides a que não seria alheia a atividade coeva dos sofistas, e que permitia à filha de Eetes, como tão bem foi assinalado, tirar partido das fragilidades de cada um dos seus interlocutores: o ambicioso Jasão, as ingénuas filhas de Pélias, o pusilânime Creonte e o soberano Egeu a braços com a sua infecundidade...


Mas o aspeto mais marcante desta palestra parece-me seguramente aquele que foi ao encontro de um recente trabalho da oradora: a publicação, em março de 2024, do primeiro volume de uma tradução integral dos fragmentos de Eurípides. Não por acaso, a Professora Mária de Fátima Silva deu início à sua exposição com um exercício de contabilidade: de quase uma centena de peças da autoria de Eurípides, temos em mãos menos de duas dezenas.


Na verdade, ouvi-la foi um convite a uma leitura mais integral da tragédia grega, que olhe a autores e não a peças concebidas enquanto unidades hermeticamente seladas; que ilumine as múltiplas facetas de uma personagem (a Medeia infanticida que todos conhecemos, mas também a Medeia madrasta de Egeu e a Medeia ostracizada) e que possa fazer transparecer ao público mais alargado o quanto, em matérias gregas, é pouco o muito que sabemos. Mas, depois de ouvir a nossa oradora, sabemos com mais propriedade a máxima que William Congreve inscreveu numa das suas peças e que Medeia corporiza: não há nos infernos nenhum castigo tão feroz quanto a fúria de uma mulher despeitada.


David Miranda

(Responsável do Heureka - Clube de Leitura)




Divulgação da sessão:

Palestra Heureka. Orientalismo, Teatro e estereótipos. Com Maria de Fátima Silva

Esta sessão parte de uma pergunta essencial: quando começa o Oriente? Ou, talvez mais precisamente: como começa o Oriente – e para quem?


A ideia de “Oriente” raramente corresponde a uma realidade geográfica ou cultural estável. Ao longo da história ocidental, o Oriente foi muitas vezes um espelho onde o Ocidente projetou as suas ansiedades, os seus desejos, os seus medos — e, sobretudo, a sua ideia de superioridade.


Esta sessão pretende verificar como o retrato de uma estrangeira, Medeia, sempre considerada perigosa e imaginativa nas artimanhas para se impor num meio estranho, se mantém constante. O contexto muda, mas o retrato é o mesmo: a mesma incompreensão entre membros de duas culturas diferentes, a manipulação de artifícios desconhecidos e perigosos para a comunidade que acolhe, a xenofobia, a dificuldade de aceitação de casamentos entre elementos de diferentes proveniências.


(Maria de Fátima Silva)



Maria Fátima Silva. Palestra Heureka. Orientalismo, Teatro e Estereotipos

Maria de Fátima Silva é Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde desenvolveu uma longa e reconhecida carreira académica na área dos Estudos Clássicos.


Licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra, instituição na qual se doutorou com uma tese dedicada à crítica do teatro trágico e cómico em Aristófanes. Ao longo da sua carreira, prosseguiu investigação neste domínio, sendo autora de numerosos livros e artigos científicos.


Destaca-se igualmente o seu trabalho como tradutora, nomeadamente de peças de Aristófanes e fragmentos de Menandro, assim como de trechos fragmentários de Eurípides que nos foram transmitidos.


Nos últimos anos, tem centrado a sua investigação nos Estudos de Receção, área em que coordenou e participou em vários volumes coletivos, entre os quais se destacam Portrayals of Antigone in Portugal, Portraits of Medea in Portugal e The Classical Tradition in Portuguese and Brazilian Poetry.


Contamos consigo no próximo dia 25 de fevereiro, às 18h30: Os bárbaros somos nós? Orientalismo, Teatro e Estereótipos.

Organização:

Ana Alexandra Alves de Sousa

Sandra Pereira Vinagre


Local

Biblioteca Palácio Galveias

Campo Pequeno

1049-046 Lisboa




Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
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