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A gestão política da morte: de Antígona à Palestina

Palestra Heureka. Sandra Pereira Vinagre. De Antígona à Palestina

A figura de Antígona tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da resistência do indivíduo face ao poder autoritário, afirmando-se como uma narrativa fundadora da consciência cívica. No entanto, na tragédia de Sófocles, esse confronto nasce de um gesto simples e profundamente humano: dar sepultura ao irmão morto, contrariando a proibição do rei Creonte. É neste gesto que a tragédia revela a sua força, ao opor a lei da cidade a uma lei mais antiga, não escrita, ligada ao dever familiar e religioso.


A encenação de Antígona, dirigida por Adel Hakim com os actores do Teatro Nacional da Palestina, inscreve esta tragédia antiga no presente. O gesto de Antígona encontra uma ressonância perturbadora na Palestina, onde, durante décadas, os corpos de palestinianos mortos não foram devolvidos às suas famílias por decisão do Estado de Israel. Enterrados anonimamente, em condições indignas, em locais isolados conhecidos como “cemitérios dos números”, estes corpos são privados de nome, de ritual e de luto.


Tal como Creonte recusa a Antígona o direito de sepultar o irmão, também aqui o poder decide sobre os mortos, procurando silenciar os vivos. À luz do conceito de necropolítica, proposto por Achille Mbembe, o corpo insepulto surge como um lugar de disputa política e simbólica, o gesto de Antígona como uma forma de resistência, e o teatro como um espaço de denúncia. A tragédia recorda-nos que o direito ao luto é também um direito à humanidade, e que recusar esse direito é uma forma de apagar o outro.


Contamos consigo no próximo dia 28 de janeiro, às 18h30: A gestão política da morte – de Antígona à Palestina.

Organização: Ana Alexandra Alves de Sousa



Sandra Pereira Vinagre. De Antígona à Palerstina

Sandra Pereira Vinagre é investigadora no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 2012, dedicando-se à receção contemporânea da tragédia grega em contextos políticos e sociais conturbados.


Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas, Mestre em Estudos Clássicos e Doutorada (summa cum laude) em Estudos de Receção, é autora de vários artigos e capítulos de livros, com participação regular em conferências nacionais e internacionais.

Publicou recentemente As Mulheres Troianas da Síria (Edições Colibri, 2024), dedicado a adaptações contemporâneas de As Troianas, de Eurípides, por mulheres refugiadas sírias.


Local

Biblioteca Palácio Galveias

Campo Pequeno

1049-046 Lisboa



Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
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