Lugares de acolhimento
- 20 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de fev.
nas Tradições Espirituais: cristã, budista e islâmica
Este evento já se realizou!

A Biblioteca Palácio Galveias acolheu no passado dia 16 de Dezembro a nossa última palestra mensal de 2025 e acolheu igualmente o nosso público já fiel, para que trocássemos ideias sobre a hospitalidade à luz das várias tradições espirituais e pudéssemos mais condignamente receber o novo ano que se avizinha.
Antes de ser dada a palavra aos oradores, vários atuais e antigos estudantes da Licenciatura em Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa declamaram trechos representativos de cada credo: o Juízo Final (Mateus 25.31-46) da tradição cristã, a budista Via do Bodhisattva (nas palavras do próprio Paulo Borges) e breves passos de textos islâmicos, coroados por um belíssimo poema de Rumi traduzido por Khalid Jamal.
A primeira intervenção coube a Rui Grácio, que bem se valeu da sua formação ecuménica a fim de nos esclarecer sobre a dimensão personalista do Cristianismo. De facto, como oportunamente se assinalou logo de início, encontramos esta ideia de amor universal já no substrato metafísico da fé cristã, para cuja Santíssima Trindade concorrem três entes numa só perfeição: trata-se do exemplo paradigmático de “igualdade na diversidade”. O orador soube mobilizar os factos mais relevantes da narrativa bíblica – a amarga permanência dos Judeus no Egito e a ação dos profetas em prol de quantos eram votados ao repúdio das antigas sociedades patriarcais (estrangeiros, órfãos e viúvas) – e conseguiu imprimir ao velho preceito com que o Senhor morigerou o povo de Israel – “Não deverás maltratar nem oprimir um estrangeiro, porque também vocês foram estrangeiros no Egito” (Êxodo 22.21) – toda uma nova atualidade. A intervenção do padre Rui Grácio foi, em última análise, um apelo no sentido de que cada qual, tendo acolhido Deus no seu ser, possa também ter olhos para ver o Deus que jaz dentro do outro.
De seguida, interveio Paulo Borges, presenteando-nos com uma pequena súmula da sua filosofia. O Budismo, afirmou o orador, aspira à sabedoria fundada na cabal compreensão da realidade e no respeito pela interdependência gerada entre todos os seres dotados de consciência; ao anular as tradicionais antinomias entre o idêntico e o diferente, o animal e o humano, o eu e o outro, o nativo e o estrangeiro, poderíamos então, sábios, praticar um amor “equânime” que visasse a felicidade e o bem-estar de todas as criaturas sencientes. Quão gratificante é para o Heureka, com a sua equipa de professores e de estudantes que amam os textos clássicos, que o corolário de muito saber seja ainda mais amar!
Por último, falou Khalid Jamal. Depois de se apresentar como “um português que professa a fé islâmica”, este terceiro interveniente começou por definir o Islão como uma atitude de abnegação e de renúncia em proveito dos outros. Depressa foi ao encontro dos outros dois oradores, chamando a nossa atenção para aquela sentença islâmica que consagra a diversidade e o respeito mútuo entre os povos como um dos princípios estruturantes da realidade: “Se Deus quisesse, ter-vos-ia feito de uma só tribo.” Toda a sua intervenção se pautou por aquela abertura de espírito, própria dos Sufis, com que contactámos no poema de Rumi e que foi igualmente o eixo norteador da conduta de Muhammad quando, em abdicando das armas, demonstrou que também o amor pode tomar cidadelas.
David Miranda
(Responsável do Heureka – Clube de Leitura)
Divulgação da sessão:

Nesta sessão de dezembro, abrimos espaço para pensar a hospitalidade como uma linguagem essencial: um modo de receber, de escutar, de dar lugar ao outro — no corpo, na palavra, no gesto.
Cada tradição desenvolveu linguagens próprias da hospitalidade, que articulam a relação com o outro, com o sagrado e com a comunidade. Ao reunir diferentes vozes religiosas, esta sessão convida-nos a pensar a hospitalidade não apenas como protocolo ou virtude individual, mas como prática espiritual e política de abertura ao mundo, num tempo marcado por migrações forçadas, ruturas e muros — visíveis e invisíveis.
ORADORES:

Rui Manuel Grácio das Neves, português (Lisboa, 1955), é sacerdote dominicano, e ordenado "Bodhisattva" pelo Dojo Zen, da "Sangha" de Lisboa.
É Doutor em Teologia, Filosofia e Sociologia, e estudioso das Religiões e do Macroecumenismo.
Viveu e trabalhou pastoralmente muitos anos em Espanha, Brasil, América Central (El Salvador e Nicarágua), e, recentemente, na Índia. Tem onze livros editados, assim como bastantes artigos sobre Teologia e Ciências Sociais, publicados em diversas revistas. Trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística, de um ponto de vista teórico, e, sobretudo, prático. Reside, desde 2009, no Convento Dominicano de São Domingos de Lisboa.

Paulo Borges é Professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e de Medicina e Meditação na Faculdade de Medicina da mesma Universidade. Coordena o Seminário Permanente "Vita Contemplativa. Práticas contemplativas e cultura contemporânea" no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.
Segue a via budista tibetana, interessando-se pela essência de todas as tradições espirituais. É cofundador do Santuário Dewachen e do projeto "Visão Pura". Foi cofundador e presidente da União Budista Portuguesa e ex-presidente da Associação Agostinho da Silva.
É tradutor, particularmente de livros budistas, e autor de 69 livros de filosofia, aforismos, ficção, poesia e teatro, publicados em Portugal, Espanha, Reino Unido e Brasil. Recebeu em 2017 um doutoramento honoris causa pela Universidade Tibiscus de Timisoara, na Roménia. Pela obra no domínio do diálogo intercultural e inter-religioso, recebeu em Espanha o Prémio Ibn Arabi-Taryumán 2019.

Khalid Jamal nasceu em Portugal, de famílias de origem indiana e árabe. Estudou no Colégio Valsassina, na Universidade Católica Portuguesa e na Harvard Business School.
Integrou a equipa da Missão Permanente de Portugal junto das Nações Unidas, tendo apoiado a candidatura de António Guterres a Secretário-Geral da ONU. Esteve na direção da Comunidade Islâmica e do Observatório do Mundo Islâmico e é, atualmente, Presidente Executivo do Instituto de Cooperação Luso-Árabe, que promove os laços entre a Lusofonia e os países árabes.
No âmbito da comunicação e do diálogo inter-religioso, participa semanalmente no programa de rádio E Deus Criou o Mundo (Antena 1). É criador e participante no programa Que Mundo Meu Deus! (TSF), dedicado a tornar mais clara a narrativa religiosa. Comenta, na CNN, temas ligados às relações internacionais. Após uma audiência com o Papa Francisco, passou a integrar a Comissão "Jornalismo e tradições religiosas", coordenada pela Faculdade de Comunicação da Pontificia Università della Santa Croce, em parceria com o Centro de Estudos do Médio Oriente e a Associação ISCOM, com o objetivo de promover a excelência na comunicação religiosa. É também Embaixador da Campanha Reset, cofinanciada pela União Europeia, que procura desconstruir a narrativa que associa o Islão ao terrorismo.
Foi diretor da AESE Business School e é, atualmente, professor convidado da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, onde aborda especificidades culturais e religiosas em contexto adverso, na pós-graduação "Missões Humanitárias, Catástrofes e Conflitos".
Contamos consigo no próximo dia 16 de dezembro, às 18h30: Lugares de Acolhimento nas Tradições Espirituais: cristã, budista e islâmica.
Organização: Ana Alexandra Alves de Sousa e Sandra Pereira Vinagre
Local
Biblioteca Palácio Galveias
Campo Pequeno
1049-046 Lisboa



























