Teatro: Hipólito
- 2 de abr.
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Atualizado: 2 de jun.
Já aconteceu! 🎭
Apreciação crítica de Hipólito (31.05.2026 - Teatro São Luiz)
Saí desta produção de Hipólito com uma sensação de profundo desencanto. Não por ter sido confrontada com temas difíceis - a tragédia grega nunca evitou o sofrimento, a violência ou os aspetos mais sombrios da condição humana - mas porque a encenação parece ter confundido provocação com profundidade e choque com reflexão.
Ao longo do espetáculo, o público é confrontado com imagens e situações que remetem para a sexualização de menores, sons agressivos e perturbadores, momentos de degradação física e simbólica, incluindo a utilização de urina em cena, num conjunto que parece ter como objetivo principal provocar desconforto. O problema não é o desconforto em si: o grande teatro muitas vezes inquieta. O problema é quando a inquietação deixa de servir uma ideia dramática e passa a ser um fim em si mesmo.
A certa altura, fica a sensação de que o espetáculo pretende que o espectador saia da sala a sentir-se mal apenas porque sim. E isso não é necessariamente arte. A tragédia clássica procurava a catarse: confrontava-nos com a dor humana para nos levar à reflexão, à compaixão e ao reconhecimento. Aqui, pelo contrário, a provocação parece frequentemente vazia, sem a densidade intelectual ou emocional que justificaria o choque.
Mais grave ainda é a relação desta encenação com a obra que afirma adaptar. O Hipólito de Eurípides está longe de ser uma peça sobre pedofilia. É uma tragédia sobre o conflito entre desejo e autocontrolo, sobre a força destrutiva da paixão, sobre a intervenção dos deuses na vida humana e sobre os perigos do extremismo moral. Hipólito, devoto de Ártemis, rejeita o amor e a sexualidade; Fedra, vítima da vingança de Afrodite, apaixona-se pelo enteado contra a sua vontade. Daí nasce uma cadeia de sofrimento, mentira e destruição que culmina na morte do jovem.
Também a Fedra de Séneca, embora mais sombria e psicológica, permanece centrada na luta interior da protagonista, consumida por uma paixão que considera monstruosa e tenta combater. Nem Eurípides nem Séneca escrevem sobre aquilo que esta encenação parece querer colocar no centro do espetáculo. O que encontramos nos textos é uma análise complexa da culpa, do desejo, da honra e da responsabilidade humana.
Naturalmente, toda a adaptação tem direito à liberdade critativa. Mas existe uma diferença entre reinterpretar uma obra e utilizá-la apenas como pretexto para um discurso que pouco ou nada conserva da sua essência. Quando o elo com o original se torna quase irreconhecível, talvez seja legítimo perguntar se ainda estamos perante Hipólito ou perante outra criação que apenas tomou emprestado o seu nome.
Produções como esta correm ainda outro risco: afastar do teatro espectadores que procuram ser desafiados intelectualmente, mas não agredidos gratuitamente. Se a mensagem transmitida for a de que o teatro contemporâneo consiste apenas em ruído, choque e desconstrução permanente, muitos concluirão que a arte dramática já não tem nada para lhes oferecer. E isso seria profundamente injusto para o teatro - e para Eurípides.
Quanto à obra original, Hipólito de Eurípides (428 a.C.) e Fedra de Séneca são tragédias sobre a paixão ilícita de Fedra pelo enteado Hipólito, desencadeada pela ação divina de Afrodite (em Eurípides) ou apresentada como uma força psicológica devastadora (em Séneca). O centro dramático não é a exploração de menores, mas a destruição causada por um desejo proibido, pela vergonha, pela mentira e pela incapacidade de controlar as emoções.
(Ana Alexandra Alves de Sousa)
Divulgação do evento
O Heureka – Clube de Leitura propõe aos seus membros uma nova atividade cultural, desta vez no Teatro São Luiz, para ver Hipólito.
31 de maio, 17h30 Preço para membros: 5€ (oferta limitada)
Reserve, quanto antes, o seu bilhete, enviando email para:

©João Tuna
Com texto original de Mickael de Oliveira, a peça Hipólito apresenta uma leitura contemporânea do mito de Fedra, centrada na brutalidade das relações familiares e na análise do trauma aplicado à sexualidade.
Com direção artística e interpretação de Bruno Simão, interpretação e produção de Xana Lagusi, música e espaço acústico de Ricardo Martins e desenho de luz de Pedro Guimarães, o espetáculo constrói, através de testemunhos e memórias fragmentadas, o retrato de uma identidade marcada pela violência do passado, numa reflexão exigente sobre desejo, poder e desestruturação do oikos.
Esta atividade insere-se na linha de iniciativas do Heureka que promovem o diálogo entre os textos clássicos e a criação artística contemporânea. Tatro Hipólito











